Investimento do grande capital traz problemas para cidades

Um dos maiores intelectuais de esquerda no mundo hoje, o norte-americano David Harvey, professor da Universidade de Columbia, critica a forma como se dão a realização de megaeventos, que acentuam o processo de exclusão nas cidades. Em sua opinião, os megaeventos são palco da origem e das soluções. Para o intelectual, o investimento do grande capital é o responsável por boa parte dos problemas sociais que sofrem as cidades. E afima que as ideias do direito à cidade precisam ser recuperadas para frear o processo de concentração de riqueza e de de aumento das desigualdades.

Conrira a entrevista com Harvey, que participou de uma mesa de debate no Fórum Social Urbano.

Em que sentido a luta pelo direito à cidade é uma luta anticapitalista?

Quem controi a cidade, no momento atual, é o grande capital. E eles estão se apropriando dos espaços da cidade para seus interesses particulares. Às vezes realizam grandes projetos que são muito bons para eles, mas que, de fato, não fazem nada pela maioria da população. Na verdade, a maioria da população [das regiões dos projetos] é despejada por meio dessas estratégias. Então é o investimento de capital nas cidades que está criando muitos dos problemas. Você se pergunta: por que o capital continua investindo na cidade da maneira como elas estão. Isso tem muito a ver com aquilo que eu chamo de contradições internas do capitalismo em manter 3% de crescimento necessário para que, assim, continue a se reproduzir. E isso tem se tornado um problema sério para as cidades que estão evoluindo agora.

O Brasil vai receber dois grandes eventos, do tipo que você tratou, em um espaço de menos de dez anos. Em sua opinião, existe algum lado positivo em trazer esse tipo de evento? É possível haver esse tipo de iniciativa sem que isso leve necessariamente a despejos e aprofundamento da exclusão social nas cidades?

Todos sabem que megaeventos como esses são grandes pretextos para pôr em prática esquemas em massa de melhoramento das propriedades. Portanto, grandes lucros serão feitos por construtoras, instituições financeiras e todo o resto que vem junto. Trata-se de uma máquina de produzir lucro. A grande questão é: será que os benefícios materiais vêm para o restante da população? A maior parte dos estudos que eu vi sobre os Jogos Olímpicos sugere que a maior parte da população em geral não se beneficia disso. Mas tem algo a mais em jogo aqui, que é o prestígio nacional. Tenho certeza que os brasileiros se sentem orgulhosos do fato [de sediar a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos]. Porém, a grande questão que eles devem se fazer é: valeu a pena pagar todos esse dinheiro por prestígio nacional? Eu sei que há outras maneiras de obter prestígio além de ter que se engajar em competição por megaeventos como os Jogos Olímpicos, a Copa do Mundo, entre outros. Porque, de fato, isso pode se transformar em competição interestados. O orgulho nacional é evocado dentro ou fora deles, mas os grandes beneficiários são os construtores. Eles conseguem seu dinheiro e vão embora.

Por que a atividade do grande capital começa a se deslocar para meios não concretos, como os espetáculos?

Se você produz, você precisa construir grandes armazéns para acomodá-la. Se você fabrica facas ou porcelana, as mercadorias vão durar cem anos. Por outro lado, um espetáculo depois que acontece, acaba.

O crédito de carbono está neste bojo?

Sim, está. Este também é um mercado fictício, é tudo do que se trata.

Fonte: Instituto Pólis. (via Forum Social Urbano)

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