Megaeventos, o jogo continua – Entrevista com a Prof.ª Fernanda Sánchez (UFF)

A professora da Escola de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal Fluminense (UFF), Fernanda Ester Sánchez García, concedeu entrevista ao PPLA 2010 na qual aborda alguns dos impactos no território causados por megaeventos esportivos, culturais, comerciais e outros. A professora será conferencista na segunda noite do PPLA, cujo tema é “Grandes Projetos, Planejamento Estratégico e Gestão Territorial”.

Formada em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e doutora em Geografia Humana pela Universidade de São Paulo (USP), Sánchez acredita que a academia, em conjunto com movimentos sociais e outras articulações possuem um “papel de evitar danos, apoiar ações contra danos e procurar sempre que possível frear ações excludentes”, ainda que em cenários adversos. Como membro do Laboratório de Estado, Trabalho, Território e Natureza (Ettern/UFRJ) a arquiteta faz parte do comitê local de organização da Conferência Internacional Os Megaeventos e a Cidade, a ocorrer entre 3 e 5 de novembro no Rio de Janeiro.

Além de tratar dos Grandes Projetos, Fernanda Sánchez abordou algumas questões transversais colocadas pelo PPLA. Ela coloca uma diferença de compreensão entre o discurso “oficial” (ONU, grandes agências reguladoras) e o discurso das lutas sociais tanto em relação à concepção de “desenvolvimento” quanto à de “direito à cidade”.

PPLA – “Desenvolvimento”, assim como democracia e liberdade, é um daqueles termos sobre os quais há uma grande disputa. Você acha que esta disputa é válida? Se sim, de que maneira deve se dar?

Fernanda Sánchez – Há uma língua franca a respeito do que entende-se por desenvolvimento. Mas é uma noção que realmente a gente tem que questionar, debater mais a que está se referindo ou quais são os atores ou os processos aos quais se refere quando fala de desenvolvimento. Certamente não se está falando da mesma coisa [sempre que se fala de desenvolvimento]. Se a gente for escutar este termo, por exemplo, no World Urban Forum e no Fórum Social Urbano, certamente não se está falando das mesmas questões. Acho que é uma noção disputada. Sempre que se fala em processos sociais, em processos territoriais, em projetos, tem que se ter essa ideia de um vir-a-ser, de um desenvolvimento de um estado de relação de forças que apontem para um outro momento ou para um futuro. Há embutido um projeto de utopia.

Mas o termo também vem sendo muito usado pelas grandes agências, pelo grande discurso. Essa coisa do “desenvolvimento sustentável”, como se todos caminhássemos rumo ao mesmo lugar. Acho que para complexificar essa ideia a gente tem que realmente tentar discutir a que está se referindo, o desenvolvimento para quem, em direção a quê e quais são os atores que estão construindo este projeto. O que é desenvolvimento para alguns setores, pode significar uma involução para outros. Ou pode significar um caminho diferente, um caminho que aponte alguns atores e alguns princípios que estruturam os seus projetos de mudança social em nome de um vir-a-ser que as vezes não relacionam-se diretamente com desenvolvimento, mas com uma mudança rumo a um outro estado de coisas.

PPLA – O que é, para você, o “direito à cidade”?

Sánchez – Este é um tema forte que ao escutá-lo nos espaços do Fórum Mundial Urbano tenho uma sensação de que há uma concepção que a ONU como grande agência, assim como outras agências, têm se encarregado de falar de uma maneira muito despolitizada. O direito à cidade sem se discutir o tempo todo quais são os atores que bloqueiam este direito à cidade na produção do espaço é uma coisa vazia, como um instrumento sem sujeito, é uma coisa que parece que são direitos universais os quais serão outorgados aos cidadãos tirados da situação de pobreza. Eu entende estes direitos como conquistas a partir de enfrentamentos e a partir de lutas sociais, então o direito enquanto uma conquista coletiva é o direito produzido por sujeitos em processo de enfrentamento e de luta. Acho que é muito despolitizador o direito à cidade como está sendo difundido como patamares, indicadores, como se isso fosse algo genérico e igual para todos.

PPLA Quais são os principais impactos que  intervenções como megaeventos esportivos, culturais, empresariais, têm no território nas cidades, nos países em que ocorrem?

Sánchez -Acho que eles têm tido impactos bem grandes no sentido de concentrar mais renda em algumas áreas da cidade e com isso produzir mais situações de desigualdade. E estes megaeventos não vem sendo acompanhados de um projeto minimamente discutido pela sociedade civil, de levar algum suporte em termos de ganhos sociais para metrópoles tão desiguais. Então eles têm gerado impactos no sentido de deslocamentos compulsórios de populações, de comunidades que vivem perto das áreas onde acontecem as obras ligadas aos eventos. E eles não tem tido impactos positivos no sentido dos efeitos que são por eles enunciados e não tem de fato acontecido.

Acho que tem um impacto muito grande no sentido de construir uma cidadania e um consenso social novamente despolitizado com uma adesão social muito forte. Há toda essa coisa simbólica de “vamos fazer um grande evento e todos vamos nos beneficiar com isso”, então há um impacto político e simbólico muito grande. Mas em termos de impactos urbanos propriamente, eles em geral tem nos levado a pensar que são impactos que agudizam as condições de desigualdade nas cidades e não promovem melhorias significativas de vida urbana em lugares que precisariam mais de obras de infraestrutura, de transporte. O transporte vem sendo pensado mais dentro da logística dos jogos funcionarem bem e não dentro de uma possibilidade de definir infraestrutura de transporte que beneficiem e enfrentem as grandes questões da mobilidade metropolitana que tem problemas enormes de deslocamentos de horas que são comuns em cidades grandes como São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba. Além de ter em vista mais a logística dos jogos, tem sido definido de uma forma acanhada e mesquinha, só em pequenos trechos e não uma coisa mais metropolitana, de peso, de aproveitar o megaevento para repensar e melhorar a infraestrutura de transportes do urbano e da metrópole.

PPLA Tem gente que faz a crítica ao megaevento, mas vê a possibilidade de alguma disputa, de aproveitar este momento de tantos investimentos para fazer algumas obras que são já reivindicações. Como você vê esta possibilidade?

Sánchez -Acho que sim. Estávamos inclusive terminando uma coletânea de um livro que iremos lançar chamado “Megaeventos em cidades: o jogo continua”. Traz um pouco esta ideia que nem tudo está definido e, embora tenha-se um cenário pouco promissor e a gente deve questionar as expectativas que são geradas pelos megaeventos, acho que a gente tem um papel nas universidades, os movimentos e as articulações sociais mais críticas em relação aos eventos de evitar danos, de apoiar ações contra danos e de procurar sempre que possível frear ações excludentes e procurar repactuar algumas decisões em uma instância mais cidadã. Acho que sim, dá para procurar repactuar algumas questões urbanas.

PPLA Em quais espaços você acha acha que seria possível essa disputa?

Sánchez -Tem algumas articulações interessantes. Movimentos de bairros atingidos por ações deste urbanismo olímpico, tem o que foi na época dos Jogos Panamericanos o comitê social do Pan, que é uma articulação de organizações, movimentos da sociedade civil e universidades. No caso dos jogos Panamericanos, por exemplo, uma mobilização social muito grande impediu com que houvesse intervenções que seriam muito danosas em uma das áreas, na área do parque do Flamengo onde teriam sido construídos equipamentos que ameaçavam o próprio patrimônio público do parque urbano, e que foram bloqueados impedidos graças a uma ação popular em uma articulação grande de alguns setores da sociedade. Esta posição vigilante e ao mesmo tempo de monitoramento, de crítica e ação é possível fazer.

Fonte: Site do PPLA 2010 http://www.coopere.net/ppla/index.php?a=home&id=28

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