A Copa do Cabo ao Rio

Cerca de 130 mil pessoas moram no subúrbio de Athlone, a 10 quilômetros da Cidade do Cabo. A maioria delas é pobre, desempregada e negra. Numa paisagem baldia e repleta de favelas, uma das poucas atrações é o estádio de futebol, com capacidade para 30 mil torcedores, palco das finais do campeonato regional. Encarregados de selecionar os locais dos jogos da Copa do Mundo na cidade, onde no próximo dia 6 de julho será disputada a semifinal, a prefeitura e o governo da província sugeriram Athlone. As autoridades vislumbraram a possibilidade de, finalmente, criar empregos na periferia da segunda maior cidade do país. A ideia era aproveitar o evento para pavimentar avenidas, construir novas casas, reformar as antigas, incrementar o transporte público.

Há três anos, uma comitiva da Fifa, a Federação Internacional de Futebol, visitou os estádios selecionados pelos sul-africanos. Na Cidade do Cabo, ela foi informada da importância da escolha de Athlone para o incremento da área e a melhoria da vida de milhares de pessoas que moram ali. Ao visitar o estádio, no entanto, a comitiva estava mais interessada no público global da Copa do que na particularidade nacional. “Os bilhões de espectadores não querem ver favelas e pobreza pela televisão”, disse um dos inspetores da Fifa ao jornal Mail & Guardian.

O governo regional e a prefeitura logo mudaram de opinião. O então presidente Thabo Mbeki também tomou posição, dizendo que “a Fifa tinha o direito de exigir o mais alto padrão possível e a África do Sul deveria ter o bom-senso de seguir a indicação”. Quatro meses depois, com o argumento oficial de que a semifinal precisava de um estádio maior, Athlone foi dispensada. Anunciou-se a construção de um novo estádio, com 68 mil lugares, num dos bairros mais ricos da Cidade do Cabo.

O estádio Green Point foi erguido entre o mar e a Table Mountain, o cartão postal da cidade. Ele está a cinco minutos a pé do luxuoso centro comercial Victoria & Alfred Waterfront e faz fronteira com um campo de golfe. A área, que era uma das poucas reservas verdes da cidade, foi substituída pela faraônica arena em forma de banheira e estacionamentos a perder de vista. Financiada com dinheiro público, a obra custou 1,1 bilhão de reais, quase quatro vezes mais do que o previsto. “Ou era isso ou não tinha Copa”, argumentou o vice-prefeito Ian Nielson, quando o estádio foi licitado.

Fundada em 1904, a Fédération Internationale de Football Association tem uma estrutura pequena. Na sede da entidade, em Zurique, na Suíça, trabalham 310 funcionários. Nos 208 países que a integram, pouco mais de mil pessoas estão na sua folha de pagamentos. Já na onu, com 192 nações filiadas, trabalham mais de 40 mil pessoas. A burocracia enxuta é replicada pelas seis confederações regionais que estão sob sua égide. A que reúne as seleções das Américas do Norte e Central e o Caribe tem quarenta funcionários. E a Confederação Brasileira de Futebol ocupa apenas um andar na Barra da Tijuca, no Rio, onde trabalham cinquenta pessoas.

Ainda assim, como escreveu o escritor uruguaio Eduardo Galeano, “a Fifa é o fmi do futebol”. Poucas instituições internacionais são tão poderosas, ricas e fechadas quanto a que organiza os campeonatos de futebol mundo afora. Ela é responsável pela comercialização de qualquer produto ligado ao futebol profissional, patrocínios e direitos televisivos. Está no centro de um mercado que movimenta 250 bilhões de dólares anualmente. No ano passado, faturou 1 bilhão de dólares com um lucro líquido de quase 200 milhões de dólares. Só com a Copa da África do Sul, ganhou 3,8 bilhões de dólares.

Os 24 membros do comitê executivo da entidade gastam seu tempo viajando pelo mundo, inspecionando estádios e times, negociando com Estados e multinacionais, articulando alianças com lideranças locais e nacionais. Além de hotéis cinco estrelas, passagens de primeira classe, Mercedes pretas com motoristas, eles têm despesas autorizadas de até 500 euros diários. Avalia-se que recebam honorários próximos de 50 mil dólares, enquanto o salário do secretário-geral chegaria ao dobro. Os ganhos e despesas do presidente da Fifa nunca foram divulgados. A renovação no comitê é baixíssima. A maioria dos cartolas está no cargo há pelo menos quinze anos.

Um país que queira sediar a Copa do Mundo tem que aceitar todas as exigências listadas no chamado “Cadernos de Encargos” da Fifa. Se necessário, a legislação nacional é modificada. O Caderno especifica o tamanho dos estádios e das suas cadeiras, o tempo em que deve ser esvaziado em caso de emergência, a quantidade de banheiros, o número de minutos que se leva para ir dos centros de imprensa aos estádios, a dimensão das salas para acolher 14 500 convidados vip e vvip (chefes de Estado, de governo e celebridades) e até a intensidade da luz em caso de apagão.

Também obriga o anfitrião a conceder vistos de trabalho ao pessoal estrangeiro (mesmo que não haja acordos diplomáticos entre os dois países), dar isenção de taxas alfandegárias para todo o material relacionado ao evento, garantir a livre transferência de divisas e bancar a infraestrutura necessária para transportes e telecomunicações.

O Parlamento da África do Sul concedeu à Copa, em 2006, o status de “evento protegido” por uma legislação específica. No Brasil, as negociações para aprovar uma lei fiscal e uma geral que regulamentarão o mundial de 2014 já estão em negociação entre a Presidência da República, o Ministério do Esporte e a Fifa.

Um dos problemas à vista é a venda de bebidas alcoólicas nos estádios e em áreas de seu entorno, o que é proibido no Brasil, mas que é capital durante os jogos da Copa: a Budweiser e a AmBev estão entre os maiores patrocinadores. “Isso será discutido mais para frente”, disse o advogado Francisco Müssnich em um café da manhã, no Rio. “Durante a Copa, não há briga de torcida nem confusão como em jogos de campeonatos nacionais, o que motivou a proibição…

(Para ler a continuação da reportagem clique aqui)

Fonte: Revista Piauí

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