GUERRA OU PAZ: O ESPORTE COMO PRODUÇÃO DESTRUTIVA

In: VI COLÓQUIO MARX E ENGELS, GT 4 – Economia e política no capitalismo contemporâneo

Bruno Gawryszewski Doutorando em Educação/UFRJ e Adriana Machado Penna Doutoranda em Serviço Social/UERJ
O presente estudo tomará como base de sua análise a lógica da “produção destrutiva”1, entendendo-a como estratégia de aceleração da circulação e expansão do capital e, conseqüentemente, criadora de um número cada vez maior e diversificado de transações dentro do “próprio círculo de consumo”2 . Este mecanismo, segundo Mészáros, além de promover novas margens de expansão do capital, produz, ainda, meios para seu fortalecimento frente às suas contradições imanentes.
Caracteriza-se, desta forma, a ampliação fetichizada do consumo capitalista totalmente descolada das necessidades humanas, submetidas que estão ao processo de “auto-expansão” do valor de troca. Tal processo pode ser compreendido como uma “mudança estrutural no ciclo de reprodução capitalista, (…), realizado pelo deslocamento radical da produção genuinamente orientada para o consumo destrutivo”3 . A existência de obstáculos frente à legitimação político-ideológica proposta por tais mudanças foram, segundo Mészáros, facilmente derrubados no capitalismo contemporâneo “pelos interesses privados dominantes e pelo Estado capitalista pela manipulação da ‘opinião pública’ e pelo controle combinado dos meios de comunicação de massa”4 .
Sob o contexto acima, no qual prevalece a lógica do capitalismo monopolista, temos por objetivo analisar o fenômeno da “produção destrutiva”5, enquanto estratégia de aceleração da circulação do capital excedente ao utilizar-se do mercado esportivo mundial em plena ascensão. Nesse sentido, questionamos: seria o mercado de grandes
1 István Mészáros. Para além do capital. São Paulo. Boitempo Editorial, 2002.
2 Idem, ibidem, p. 680.
3 Idem, ibidem, p. 678. (Grifos do autor)
4 Idem, ibidem, p. 692.
5 Idem, ibidem.
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eventos esportivos um agente capaz de combinar a máxima expansão possível do capital com uma taxa de utilização decrescente mínima?
Para fazermos esta discussão, chamamos a atenção para a simplificação e naturalização de um processo que está em curso: o da produção e subseqüente destruição física de grandes estádios em várias partes do mundo. Junto a isso, destaca-se a permanente criação de novas necessidades de consumo ligadas, direta ou indiretamente, ao mercado esportivo e a todo o aparato e infra-estrutura que o cerca.
O fenômeno que, por ora, nos interessa investigar poderia se destacar, sob uma análise superficial, pelo seu caráter supostamente inovador e casual, argumento este tão difundido pelo discurso da sociedade pós-moderna e de sua permanente atenção às demandas do mercado globalizado e sua adequação à velocidade dos avanços tecnológicos.
Na contramão deste argumento, queremos aqui destacar as contradições deste fenômeno, analisando-o sob circunstâncias de domínio dos monopólios. Na perspectiva apontada por Mészáros, entendemos que tal fenômeno vem se constituindo como um possível “equivalente funcional preferível”6 à serviço do mecanismo de aceleração da velocidade de circulação do capital. Tal como afirma Baran7, tanto o desperdício, como a irracionalidade, constitui “formas sob as quais se esconde o excedente econômico potencial na complexa teia de aranha da economia capitalista”8 . Nesse sentido, o desperdício de recursos determinado pela existência de monopólios e da competição monopolista relaciona-se “à própria essência do capitalismo”9 , contribuindo para garantir a manutenção dos critérios de sobrevivência do capital.
(…) tornou-se necessário adotar a forma mais radical de desperdício – isto é, a destruição direta de vastas quantidades de riqueza acumulada e de recurso elaborados – como maneira dominante de se livrar do excesso de capital superproduzido.10
6 Idem, ibidem, p. 680.
7 Paul A. Baran. A economia política do desenvolvimento. 4ª edição. Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1977,
p. 75-76. “O excedente econômico potencial é a diferença entre o produto social que poderia ser obtido em um dado meio natural e tecnológico, com o auxílio dos recursos produtivos realmente disponíveis, e o que se pode considerar como consumo indispensável”. O autor afirma, ainda, que a este tipo de excedente soma-se toda a produção desperdiçada em função do “subemprego ou do mau emprego de recursos produtivos”.8 Idem, ibidem, p. 94. 9 Idem, ibidem, p. 94.10 Mészáros, Para além do capital, cit., p. 678-679
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Produção para destruição: contradição necessária ao capital
Ao elegermos a contradição como categoria central de análise, pretendemos nos valer de instrumentos teórico-metodológicos que nos possibilitem uma investigação radical e ampla sobre o objeto a ser tratado, frente à dinâmica social contemporânea.
Nesse sentido, as teses adotadas por Marx e Engels no Manifesto Comunista – que se tornaram ainda mais complexas e concretas duas décadas mais tarde, com a publicação do livro I de O Capital – serão fundamentais a este estudo11 . Destacamos aqui, aquela que parece ser a formulação mais relevante do Manifesto Comunista, qual seja a explicitação de que a dinâmica da sociedade capitalista traz em si a sua própria negação. Marx e Engels asseveravam, assim, que à medida que o capitalismo exercita o seu potencial reprodutivo – criando mecanismos de expansão que buscam romper com toda e qualquer barreira que possa limitar o seu avanço – produz, ao mesmo tempo, obstáculos à sua própria perpetuação. Revela-se naquele que, muito mais que um panfleto, é uma arma de luta da classe trabalhadora, a insuperável contradição contida no sistema de funcionamento do capital.
A moderna sociedade burguesa, com suas relações de produção, de troca e de propriedade, sociedade que conjurou gigantescos meios de produção de troca, assemelha-se ao feiticeiro que perdeu o controle dos poderes infernais que pôs em movimento com suas palavras mágicas. (…) destrói-se uma grande parte dos produtos existentes e das forças produtivas desenvolvidas. Irrompe uma epidemia que, em épocas precedentes, parecia absurdo – a epidemia da superprodução. (…) E como a burguesia vence essas crises? De um lado, pela destruição violenta de grande quantidade das forças produtivas; do outro, pela conquista de novos mercados e pela intensa exploração dos antigos.12
À necessidade de expansão do capital monopolista está atrelada a mesma incontrolável tendência à queda da sua taxa de lucro, tal como já nos mostraram Marx e Engels ao tratarem do capitalismo clássico, concorrencial. Na tentativa de driblar tal tendência, as grandes empresas buscam a dianteira na corrida pela elevação de sua composição orgânica. Este processo se dá, agora, sob uma nova dinâmica competitiva, na qual participa um número cada vez menor de capitalistas (porém, cada vez mais poderosos), privilegiados pelo domínio, ou seja, pela concentração dos meios de produção e da força de trabalho. Conseqüentemente, mediante esta nova estratégia de apropriação da riqueza, viabilizar-se-á o processo de centralização capitalista, resultante da conquista temporária das avançadas transformações e descobertas tecnológicas.
11 Harold J. Laski. O manifesto comunista de Marx e Engels. 2ª Edição. Rio de Janeiro, Zahar Editores,
1978.
12 Idem, ibidem, p. 98-99.
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Guerra ou Paz? Ou: o esporte sob o domínio dos monopólios
De acordo com Mészáros o surgimento do que ele denominou de “complexo militar-industrial” foi o instrumento “disposto a romper” com as contradições que impedem a relação direta entre, a “máxima expansão possível” do capital, e a “taxa de utilização mínima”13. O complexo militar-industrial seria segundo este autor, o caminho mais fácil, ou seja, “a linha de menor resistência”14 do ponto de vista do capital.
A introdução do complexo militar-industrial, enquanto instrumento capaz de lidar com as contradições estruturais do capital representou, entre outros aspectos, um ‘salto qualitativo’ posto que, o alcance e o tamanho absoluto de suas operações rentáveis se tornaram incomparavelmente maiores do que poderiam, caso fossem concebidos nos estágios anteriores dos desdobramentos capitalistas”15. Este instrumento foi capaz de suprimir a distinção entre consumo e destruição removendo, assim, os limites tradicionais impostos ao círculo de consumo.
Assim, o complexo militar-industrial ao promover a remoção das necessidades de consumo real, passou a priorizar a produção de valores de uso. A necessidade humana deixou de ser o critério para a reprodução ampliada do capital. Essa prática, que originalmente servia às circunstâncias emergenciais de crise, passa a ser vista e utilizada na cotidianidade de uma sociedade que generalizou a produção para a destruição, na medida em que manipula e impõe a criação de necessidades a serem consumidas.
Apoiados na discussão acima queremos, neste ponto, introduzir a análise da produção do fenômeno dos grandes eventos esportivos – enquanto nova expressão daquilo que Mészáros chamou de “linha de menor resistência do capital” – sendo capaz de incorporar-se à lógica da produção destrutiva, tal como o complexo militar-industrial. “Esporte e Cultura da Paz”: para que e para quem?
Na antiguidade os gregos afirmavam serem os eventos esportivos, os jogos e atividades corporais de um modo geral – tendo na sua maior expressão os Jogos Olímpicos – um período de paz e de trégua mediante todo tipo de conflito e guerra. Ao contrário, o capitalismo monopolista tem nos mostrado que os Jogos Olímpicos, por exemplo, não têm a mesma função social que tivera na sua origem. Nesse sentido, ao
13 Mészáros. Para além do capital, cit., p. 685.
14 Idem, ibidem, p. 675.
15 Idem, ibidem, p. 691.
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retomá-los na atualidade como se fossem mera continuação, linear e mecânica, daquilo que foram, desvinculam-nos de seu contexto histórico concreto.
Eleito como um dos elementos fundamentais nas investidas de organismos multilaterais, tais como a ONU e a UNESCO, o esporte transformou-se em ícone da campanha para promover a paz mundial. O ano de 2000 foi eleito pela Assembléia Geral das Nações Unidas como o Ano Internacional da Cultura da Paz. Neste contexto, segundo Penna16, líderes de 191 países membros da ONU reuniram-se para definir estratégias (que devem ser implantadas até 2015), que garantam o desenvolvimento humano pelo melhora da qualidade de vida e a diminuição da pobreza no mundo
Ao tratar da relação do esporte com o desenvolvimento humano, o documento destaca que: As capacidades humanas básicas necessárias para isto são: ‘conduzir vidas longas e saudáveis, ter acesso ao conhecimento, ter acesso aos recursos necessários para manter um padrão de vida decente e poder participar na vida da comunidade. O esporte pode ajudar diretamente a construir essas capacidades. 17
A paz e as diversas formas de inclusão, tão propagandeadas, não se efetivaram (como já se poderia prever), dado os objetivos meramente assistencialistas e focalizados previstos naquele projeto. Porém, outros resultados parecem estar beneficiando bastante um mercado que já vinha em ascendência pela quantidade de investimentos, tanto de ordem pública como privada: trata-se da grande massa de capital circulante no setor do esporte mundial.
Assistimos, nestes últimos anos, os meios de comunicação de massa utilizando desportistas, conhecidos mundialmente, na participação de campanhas de marketing, ações de política externa etc. Além da divulgação constante do grande mercado no qual se transformou a compra e venda de jogadores e atletas, entre clubes/empresas de todo o mundo.
É desta forma que chamamos a atenção para o convívio, aparentemente pacífico, de megaeventos esportivos acontecendo, concomitantemente, a conflitos e guerras
16 Adriana Penna. Sistema CONFEF/CREFS: a expressão do projeto dominante de formação humana na educação física. Niterói, abril de 2006. Dissertação (Mestrado em Educação) _ Faculdade de Educação, Universidade Federal Fluminense.
17 Idem, ibidem, p. 77
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imperialistas. Vários são os exemplos aos quais poderíamos recorrer, com o intuito de dar destaque a este aspecto. Entretanto, neste ponto destacaremos brevemente apenas dois que, na nossa avaliação, revelam por si só a trama econômica e político-ideológica a qual tais eventos estão submetidos.
Como primeiro exemplo, retomaremos o fato emblemático ocorrido no Haiti, que teve o seu presidente, Jean-Bertrand Aristide, deposto por um golpe orquestrado pelos EUA, que impõem àquele país total submissão ao capital norte-americano.
Todavia, por causa do desgaste dos EUA perante a opinião pública mundial (…) a manobra no Haiti assumiu um novo aspecto: primeiro com a participação da França, sob a bandeira da ONU, e depois, ainda sob essa bandeira, com a ‘terceirização’ da ocupação do Haiti por tropas de países latino-americanos subordinados ao imperialismo ianque, como Brasil, Argentina e Chile. 18
Uma das primeiras ações dos 1,2 mil soldados brasileiros foi distribuir bolas de futebol e camisas da seleção brasileira para jovens daquele país. Naquela ocasião o Primeiro-Ministro (golpista) haitiano, aproveitou para dizer que alguns jogadores de futebol brasileiros poderiam “fazer mais para desarmar as milícias do que milhares de soldados das forças de paz” 19. A 18 de Agosto de 2004, o Haiti parou para assistir ao que ficou conhecido como o “Jogo da Paz”, uma partida de futebol entre a seleção do Brasil e jogadores do Haiti. Antes do jogo, houve um verdadeiro desfile dos astros brasileiros pelas ruas, em cima de carros blindados da ONU, entre os quais Ronaldo, Ronaldinho e Roberto Carlos.Ao povo daquele país massacrado fora aplicado um analgésico de curta duração, mas, de grande êxito aos interesses políticos dominantes. “Muitos dos rebeldes dispuseram-se a trocar armas por ingressos” e o Brasil, mais uma vez, mostrou-se submisso ao poder do império.20
O nosso segundo exemplo tratará da relação direta entre a função ideológica dos grandes eventos esportivos, ao desviar a atenção dos conflitos bélicos imperialistas e, ao mesmo tempo, acelerando o processo de circulação do capital pela via da produção e destruição de estádios. Referimo-nos à última edição dos Jogos Olímpicos 2008, em
18Haiti, 2004: “200 anos da revolução dos escravos e o papel das tropas brasileiras na ocupação”. Boletim do CeCAC, ano X, no 4, nov/dez 2004. Disponível em: http://www.cecac.org.br/mat%E9rias/Haiti.htm
19 O feiticeiro branco. “Futebol e paz (III): Craques pela paz (Haiti, 2004)”.
Didponível em: http://ofeiticeirobranco.blogspot.com/2009/02/futebol-e-paz-iii.html20 O feiticeiro branco. “Futebol e paz (III): Craques pela paz (Haiti, 2004)”, cit.
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Pequim. O Governo chinês, meses antes do início do evento, recebia inúmeras críticas por causa de sua política em relação aos direitos humanos. Uma série de protestos contra a postura da China, no conflito da região sudanesa de Darfur, abriu espaço para protestos vindos de diversos pontos do mundo. Muitos desses protestos foram dispersos de forma violenta.
a organização de defesa dos direitos humanos Human Rights Watch
(HRW) protestou contra os problemas já citados, além de outros
como a exploração de empregados na produção de artigos
esportivos.21
O Comitê Olímpico Internacional (COI) declarou, à época, acreditar que: os “Jogos contribuam para melhorar a situação dos direitos humanos na China, mas lamenta que o evento se transforme em uma plataforma para reivindicações políticas”22 . Paralelo aos Jogos de Pequim, acirravam-se os combates entre a Rússia e a Geórgia pelo domínio das duas regiões separatista, a Abecásia e Ossétia do Sul23 . Tais fatos provocaram apreensão pelo o mundo e, da mesma forma, aos atletas dos respectivos países que disputavam os Jogos em Pequim, mas, nada que impedisse qualquer tipo de boicote ao megaevento.
A cerimônia de abertura e encerramento dos Jogos Olímpicos de Pequim ocorreram no Estádio Nacional – sendo a maior sede dos Jogos, com capacidade para até 91 mil torcedores24, conhecido com Ninho de Passaro. Seu custo foi de “dezenas de milhões de dólares, uma fração dos estimados US$ 43 bilhões que a China gastou na construção de estradas, estádios, parques e linhas de metrô na tentativa de transformar”25 a infra-estrutura do país para sediar o evento. Construído em 1990, para a realização dos Jogos Asiáticos, o Estádio Nacional do Centro Olímpico foi totalmente reformulado para abrigar a Olimpíada. ”A reformulação utilizou uma técnica avançada
21 Ultimo Segundo. Especial China 2008. “Jogos de Pequim mantêm tradição olímpica de mistura entre política e esporte”. Disponível em: http://ultimosegundo.ig.com.br/olimpiada/2008/02/14/jogos_de_pequim_mantem_tradicao_olimpica_de_ mistura
22 Idem, ibidem.
23 “Rússia assina pacto com Abecásia e Ossétia do Sul”. BBCBrasil.com. Disponível em:
http://www.bbc.co.uk/portuguese/reporterbbc/story/2008/09/080917_georgia_dg.shtml
24 “Olimpíadas: A China investiu alto na tecnologia e no design das 37 sedes”. Tribuna do Norte. Disponível em: http://tribunadonorte.com.br/noticias/83012.html
25 Jim Yardley e David Barboza. “Pequim dá início aos Jogos Olímpicos”. Uol Mídia Global. Disponível em:http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/nytimes/2008/08/09/ult574u8711.jhtm
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de demolição, preservando partes inteiras do estádio para depois serem acopladas ao novo projeto”26. O custo da obra estourou o orçamento, “atingindo cerca de US$ 500 milhões” (…). Além disso, ao menos seis operários morreram em acidentes no canteiro de obras”27 .
Seguindo a mesma linha da demolição ocorrida em Pequim, como citado acima, vários estádios já foram ou, ainda serão demolidos sob a justificativa de que será economicamente mais viável. Vários países têm adotado esta prática.
O clube Espanyol sem estádio próprio desde a venda do Sarriá, em 1997– que foi demolido pouco depois – anunciou a inauguração, no primeiro semestre de 2009, do seu novo estádio, o Cornella-Prat, que terá capacidade para 40 mil torcedores28 .
Londres será a sede dos Jogos Olímpicos de 2012. No entanto, as autoridades municipais já estudam a destruição do Estádio Olímpico que está sendo construído, justificando que a estrutura não seria lucrativa no futuro, caso priorize apenas “as competições de atletismo, como ocorrerá nos Jogos, daqui a quatro anos”29 .
O custo inicial previstos apenas para a construção do estádio de Londres, girava em torno de 525 milhões de libras, o equivalente a cerca de R$ 1,5 bilhão.
Já a avaliação inicial, para os todos os gastos olímpicos alcançaria algo próximo a 3,4 bilhões de libras, mas o valor já se aproxima a 9,3 bilhões (quase R$ 30 bilhões)30 .
O mesmo ocorreu no Brasil em função do Pan-2007, na cidade do Rio de Janeiro. Embora as arenas construídas para as competições não tenham sido literalmente demolidas até o momento, transformaram-se em estruturas obsoletas. Quando muito são entregues pelo poder público à iniciativa privada – sob contratos de longa duração, a
“Locais de competição”. UOL Olimpíadas 2008. Disponível em: http://olimpiadas.uol.com.br/2008/guia/locais-de-competicao/estadio-do-centro-olimpico.jhtm27 Idem, ibidem.
28 “Após demolição do Sarriá, Espanyol está próximo de inaugurar novo estádio”. Agências de notícias Barcelona, Espanha. Disponível em: http://globoesporte.globo.com/Esportes/Noticias/Futebol/espanhol/0,,MUL851460-9845,00APOS+DEMOLICAO+DO+SARRIA+ESPANYOL+ESTA+PROXIMO+DE+INAUGURAR+NOVO+ES TADIO.html
29 “Londres pode demolir estádio olímpico após 2012; destino seria o futebol”.UOL Olimpíadas 2008notícias. Disponível em: file:///C:/Documents%20and%20Settings/Mariana/Meus%20documentos/Adriana%20(G)/PRODU%C3 %87%C3%83O%20DESTRUTIVA/Londres%20pode%20demolir%20est%C3%A1dio%20ol%C3%ADmp ico%20ap%C3%B3s%202012%3b%20destino%20seria%20o%20futebol%20-%2004-09-2008%20%20UOL%20Esporte%20-%20Olimp%C3%ADadas%20Pequim%202008.htm
30 Idem, ibid.
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preços insignificantes, se avaliado o custo que essas mesmas instalações representaram ao orçamento público brasileiro.
A contradição, neste caso, é tamanha se tomarmos como exemplo o caso do estádio Delle Alpi, construído para a Copa da Itália em 1990, localizado em Turim. Após vinte anos de sua construção, está considerado obsoleto e disfuncional, por conta da distância entre o público e o campo causada pela pista de atletismo. “Hoje encontra-se em estado de demolição e em sua área será construído um novo estádio de propriedade da Juventus”31. Ou seja, o que é considerado obsoleto e disfuncional, foi utilizado como padrão na construção no estádio Engenhão, apenas há dois anos para o Pan-2007.
Atualmente com a escolha do Brasil para sediar a Copa Mundial de Futebol, em 2014, já existe a defesa para que vários estádios brasileiros venham a ser demolidos. Segundo um estudo realizado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU/USP) “os principais estádios brasileiros devem ser demolidos para atender às exigências da Fifa para receber os jogos da Copa do Mundo de 2014, que será realizada no Brasil”32. Segundo este estudo, resultado de uma tese de doutorado defendida pelo arquiteto Carlos de la Corte, a demolição é a única saída para deixar os centros esportivos nos padrões europeus. O trabalho defende, ainda, que as arenas devem ser totalmente remodeladas e descarta possíveis reformas, já que mesmo que profundas, seriam economicamente inviáveis. Segundo o arquiteto
‘Nenhum dos estádios estudados tem condição de ser rentável, uma vez que o futebol não é capaz de isoladamente sustentar as finanças de uma arena moderna (…). ’Se faz necessária a demolição completa de arquibancadas, saídas, rampas, coberturas, acessos e remodelação completa de seus projetos’.33
Outro caso emblemático está na construção do estádio denominado “Cidade da Copa”, localizado em São Lourenço da Mata, a 40 km de Recife. Este parece ser o caso mais evidente no Brasil de construção com data para destruição. Isto porque Recife possui três grandes clubes (Sport, Náutico e Santa Cruz), todos com estádio de porte médio. Por que o poder público, junto com a iniciativa privada, constrói um estádio fora da cidade?
31“Estádio delle Alpi”. Wikipédia, a enciclopédia livre.Disponível em:http://pt.wikipedia.org/wiki/Est%C3%A1dio_delle_Alpi
32 Rodrigo Prada. “Estudo sugere demolição dos principais estádios do Brasil”. PORTALMS.COM.BR.
Disponível em: http://www.portalms.com.br/noticias/Estudo-sugere-demolicao-dos-principais-estadiosdo-Brasil/Brasil/Obras/10205.html
33 Idem, ibidem.
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Orçada em R$ 1,6 bilhão e com início da execução das obras para janeiro de 2010, a Cidade da Copa prevê a construção de um estádio, um conjunto habitacional, um centro comercial, hotéis e investimentos privados. O Governo do Estado investirá de R$ 35 a R$ 40 milhões no terreno. O restante do empreendimento terá recursos de uma Parceria Público-Privada (PPP).34
Natal e Cuiabá são as outras cidades que terão que construir novos estádios para a Copa de 2014 no Brasil. Após o evento, os estádios ficarão à míngua de público e sustentabilidade financeira para se manterem, porque não há clubes desses estados (RN e MT) nem na segunda divisão do campeonato brasileiro.
De todo modo, as estratégias abordadas por este estudo têm perpetuado o ciclo de movimentação do capital em ritmo acelerado. O esporte, nesse sentido, vem servindo de ferramenta para minimizar as contradições e gerenciar as crises vividas pelo modo de produção capitalista.

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