Megaeventos podem transformar Rio em ‘cidade de exceção’

Vainer participou do Fórum Social Urbano. Foto: Marco Fernandes

Aline Durães

Que projeto de cidade estamos desenvolvendo? Os debates acerca dos rumos do Rio de Janeiro como sede da Copa do Mundo de 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016 levam em consideração a vontade popular? Para responder a essas e outras questões, urbanistas, pesquisadores e sociólogos de várias partes do mundo organizaram, de 23 a 26 de março, no Centro do Rio, o “Fórum Social Urbano”.

O evento teve como objetivo criar um espaço de discussão paralelo ao “V Fórum Urbano Mundial”, realizado pela Agência Habitat da Organização das Nações Unidas (ONU), nos mesmos dias e também na capital fluminense.

Dividido em quatro eixos temáticos — “Criminalização da pobreza e violência urbana”, “Megaeventos e a globalização das cidades”, “Justiça ambiental da cidade” e “Grandes projetos urbanos, áreas centrais e portuárias”—, o “Fórum Social Urbano” se configura como uma possibilidade de pensar as cidades contemporâneas e de promover debates acerca da democratização dos espaços.

Palestrante do evento, Carlos Vainer, professor do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (Ippur) da UFRJ, falou sobre o modelo atual de planejamento das cidades. De acordo com o pesquisador, a cidade, hoje, adquiriu status de mercadoria, de empresa e de pátria. Dentre as consequências desse processo, estão a despolitização e a crescente competição entre os governos locais por capitais estrangeiros. Confira abaixo a palestra de Carlos Vainer na íntegra:

Carlos Vainer
Professor do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (IPPUR)

Nos anos 1980, instalou-se uma crise do planejamento tradicional que dominou o Brasil nas décadas anteriores. Aquele era um planejamento tecnocrático centralista autoritário, que sofreu ataques da esquerda democrática e da direita. A esquerda questionou seu caráter autoritário e convocou maior participação social no planejamento. Já a direita o atacou por considerá-lo intervencionista e não respeitar o mercado.

O novo modelo veio atender uma perspectiva estratégica que encara as cidades como sendo submetidas às mesmas transformações das empresas. São os mesmos desafios. Para alguns teóricos, as cidades tomam consciência de que a economia se produz numa competição entre territórios. E vivem, portanto, a mesma realidade das empresas. O objetivo é, então, organizar o espaço urbano e dar à cidade um lugar melhor no sistema competitivo.

A cidade passa a ser pensada como mercadoria, como empresa e como pátria.

A partir do momento que a cidade é vista como mercadoria, vendê-la se converte em objetivo básico dos governos locais. Existem múltiplos clientes, mas o preferencial é o grande capital internacional. Nesse sentido, o marketing urbano se transforma no modelo de gestão da cidade. Se pegarmos o planejamento estratégico do Rio de Janeiro, de Lisboa ou de qualquer outra cidade, veremos que são muito parecidos.

O importante não é o que a cidade é, mas sim o que ela oferece para atrair os capitais. Começamos então a vender imagens. No planejamento estratégico do Rio, por exemplo, está escrito que um dos problemas da cidade é a visibilidade da população de rua. Ou seja, o ruim não é haver pessoas que não possuem moradia, mas sim elas serem visíveis. Se nós conseguirmos escondê-las, nosso imbróglio está resolvido. A miséria se torna um problema paisagístico. Nesse sentido, a cidade é pensada como uma mercadoria de luxo; não é qualquer um que pode tê-la.

Na concepção da cidade como uma empresa, ela deixa de ser vendida como um produto e passa a agir como uma empresa. Alguns urbanistas dizem que as grandes cidades são as multinacionais do século XXI. Seguindo essa linha de raciocínio, se uma cidade é empresa, ela deve então ser entregue a quem entende de negócios. O setor privado deve assumir a gestão das estratégias econômicas locais. É o que eu chamo de democracia direta. Uma democracia gerida não pelo povo, mas sim pelo capital. Essa cidade-empresa não é, entretanto, o lugar da política ou da cidadania. É o lugar do trabalho, da produção para o crescimento da nação.

Já a cidade como pátria inviabiliza a crítica. Se a nossa cidade está em guerra com outras numa competição sem quartel, todos aqueles que levantam críticas, toda divergência é uma ameaça à competitividade, à vitória. O crítico divide a pátria na guerra pela atração de capitais. Há aqui, um profundo esforço de esmagar a cidade como lugar de política e submetê-la como local de negócio.

Se o processo de transformação da cidade em mercadoria, empresa e pátria é  o processo de despolitização da cidade, eu poderia dizer que um megaevento, como uma Copa ou as Olimpíadas por exemplo, leva isso ao extremo e gera o que nós podemos chamar de cidade de exceção, por analogia ao estado de exceção. É aquela cidade onde não vigoram mais as regras de convivência urbana, porque outra razão se impõe. Nela, há o controle direto do capital sobre a direção da cidade.

A cidade de exceção, ao final, penetra o conjunto do tecido urbano, permitindo esconder a pobreza e autorizando a criminalização dessa pobreza. É o que aconteceu em Johannesburgo, capital da África do Sul, que abrigará a Copa do Mundo, em 2010. Os vendedores ambulantes foram expulsos das áreas próximas às instalações das competições. A experiência sul-africana é a promessa do que será o Rio de Janeiro e dos problemas que enfrentaremos aqui.

Fonte: Olhar virtual, UFRJ. http://www.olharvirtual.ufrj.br/2010/index.php?id_edicao=290&codigo=3

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