As contas erradas da FIFA

Fundada em 1904, a FIFA obteve em 2009 um rendimento de 147 milhões de euros, e aumentou seu patrimônio, atingindo a bela soma de 795 milhões de euros. Boa parte dessa quantia tem origem na gestão do brasileiro Joao Havelange, que a partir de 1974 abriu a federação para as multinacionais

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A Copa do Mundo de 2010 deve trazer benefícios ao conjunto do continente africano. Nosso programa‘Ganhar na África com a África’ concretiza essa vontade. Durante um ano instalaremos um campo com gramado artificial em cada federação africana1”, prometeu, em 2009, Joseph Blatter, presidente da FIFA (Federação Internacional de Futebol). Essa generosidade parece insignificante no contexto de um país minado pela segregação social herdada do apartheid. No entanto, à afortunada FIFA não faltam trunfos tilintantes, a ponto de a crise econômica e financeira mundial não parecer ter influência sobre a mais rica das federações esportivas.

Fundada em 1904, a FIFA obteve em 2009 um rendimento de 147 milhões de euros, e aumentou seu patrimônio atingindo a bela soma de 795 milhões de euros. “O futuro parece animador”, comemora Julio Grondona, presidente da comissão de finanças da entidade. “A Copa do Mundo de 2014 já goza de grande popularidade. Além dos seis parceiros da Fifa2 atualmente sob contrato, já assinamos os primeiros contratos de patrocínio nacionais e internacionais. Nesses tempos de instabilidade econômica, nossa principal competição revela-se um valor seguro que combina suspense, divertimento e esporte de alto nível, e constitui uma excelente plataforma para as marcas comerciais3.”  Desse ponto de vista, a Copa do Mundo de 2010 constitui “um excelente trampolim em direção aos mercados africanos, como a de 1994 foi para o mercado norte-americano, e a de 2002 para o asiático”, comenta o sociólogo francês Patrick Vassort, especialista nas relações entre futebol e política.4

FINANCIAMENTOS DE TODOS OS LADOS
O idílio entre essas marcas e a FIFA já dura 36 anos. As núpcias foram celebradas no dia 11 de junho de 1974, em Frankfurt, durante a Copa do Mundo organizada pela Alemanha Ocidental. Nessa data, o brasileiro João Havelange venceu seu predecessor, o britânico Stanley Rous, na disputa pela presidência da instituição. Havelange tinha, em segundo plano, um articulador tão discreto quanto eficaz – Horst Dassler, presidente da empresa de material esportivo Adidas França – que “se contentou em distribuir uma porção de folhetos aos delegados ainda indecisos ou capazes de conseguir outros votos, para encorajá-los a apoiar Havelange5”. O dia seguinte começou com uma promessa de lua-de-mel, ritmada pela assinatura de contratos cada vez mais polpudos. Eufórica com sua nascente fortuna, a FIFA agregou a seu organograma as direções de desenvolvimento, marketing e comunicação.

Formação de treinadores, novos torneios, estágios de arbitragem: o empreendedor Dassler persuadiu a Coca-Cola a financiar os projetos de campanha de Havelange. Em contrapartida, o grupo norte-americano obteve “o direito de exibir seu logotipo na Copa do Mundo”. E claro: ”Depois que a Coca-Cola assinou, todo mundo quis entrar6”. Foi assim que a federação internacional concluiu “um pacto ‘faustiano’ com as multinacionais”, resume Paul Dietschy, historiador de futebol.7

DENÚNCIAS DE CORRUPÇÃO

Visionário, Dassler pressentiu antes de seus concorrentes o formidável potencial econômico da televisão. Criando a empresa de marketing e gestão de direitos, International Sport and Leisure (ISL), em 1983, o executivo da Adidas tornou-se o associado número um da FIFA, à qual garantiu uma renda confortável. Tudo de acordo com um mecanismo antigo como o comércio: a ISL compra os direitos diretamente da FIFA e os revende a preço de ouro às cadeias de televisão. Um acordo que trouxe ganhos somente para os acionistas da Adidas e para um punhado de figurões da federação. Até à falência fraudulenta da ISL, em dezembro de 2001, alguns de seus altos dirigentes receberam subornos como agradecimento por sua fidelidade à marca das três listras.

O ex-vice-presidente Jean-Marie Weber, amigo de Blatter há 30 anos, e cinco outros dirigentes da empresa foram perseguidos por má conduta. De acordo com o argumento da acusação, elaborado durante o processo no tribunal de Zug (Suíça) em março de 2008, os cartolas haviam desviado 70 milhões de euros, pagos pelas cadeias de televisão Globo (Brasil) e Dentsu (Japão) para a compra dos direitos de difusão das Copas do Mundo de 2002 e 2006.8 Embora Weber, considerado pelos investigadores como o coração de um “sistema de corrupção”, e seus colaboradores tenham recusado revelar os nomes dos destinatários dessas “comissões”, dois dignitários da FIFA foram formalmente identificados. Trata-se do presidente da Confederação Sul-Americana de Futebol, Nicolas Leoz, que teria recebido 211.625 francos suíços (equivalente a 147.518 euros) em janeiro e maio de 2000, e do ex-presidente da Federação de Futebol da Tanzânia, Muhidin Ndolanga, que teria recebido 15.975 francos suíços (11.138 euros) em dezembro de 1999.9
No fundo, os chefes da FIFA são crianças crescidinhas e excessivamente mimadas pela vida: “Os 24 membros [de seu comitê executivo] e seus sete vice-presidentes são provavelmente mais poderosos e muito mais bem remunerados que os de qualquer empresa multinacional do setor concorrencial. Seu presidente, ‘Sepp’ Blatter, cujo pagamento continua sendo um segredo, ganharia perto de US$ 4 milhões por ano10”. Os seis acusados acabaram admitindo, durante a audiência, que na década que precedeu a falência da ISL eles verteram cerca de 96,2 milhões de euros em suborno, via uma conta do banco LGT, em Liechtenstein, pequeno paraíso fiscal encravado no coração da velha Europa. Em sua defesa, a legislação suíça não proibia as comissões na época do ocorrido. Por isso, os ex-dirigentes da ISL e seus “parceiros” da FIFA foram considerados responsáveis, mas… não culpados! Blatter, que sucedeu a Havelange em 1998, aferra-se a seu posto e agora fecha os negócios da entidade com seu sobrinho, Philippe Blatter, presidente da empresa Infront Sports & Media AG, titular dos direitos televisivos da FIFA e domiciliada em Zug – como a falecida ISL e muitas multinacionais. Antes de assumir, em 2006, a direção do grupo fundado pelo falecido Robert-Louis Dreyfus – riquíssimo homem de negócios e proprietário do Olympique de Marselha –, Philippe Blatter trabalhava para a McKinsey, prestigiosa empresa de consultoria estratégica. “De 2000 a 2006, a McKinsey cobrou da FIFA mais de  US$ 7 milhões de honorários pelo trabalho de titã prestado por Philippe Blatter, como consultor de luxo, para ajudar a Federação Internacional de Futebol a se organizar11.”

Com ou sem ISL, as vantagens da telinha continuam a recair sobre a sede da federação, em Zurique. Em 2009, Joseph Blatter recebeu das mãos de seu generoso sobrinho 487 milhões de euros a título de direitos de difusão, entre os quais 469 milhões para a Copa do Mundo de 2010, ou seja, 60% do rendimento da FIFA.12

O MUNDO NAS MÃOS

No mundo da FIFA, as piores distorções das leis são explicadas pela forma de designação do presidente, da qual decorre o processo de tomada de decisão da organização. Seja qual for sua população, cada Estado dispõe de um voto. O que leva a uma super-representação dos territórios subpovoados e dos países pobres e favorece a corrupção endêmica na qual a Fifa está imersa há décadas. Com 207 filiados, a federação reúne mais membros que a Organização das Nações Unidas (ONU), o que aguça o apetite de candidatos em busca de apoios fáceis. “A FIFA é mais ou menos o melhor dos mundos, com os pequenos principados europeus e as ilhas minúsculas pesando tanto quanto as grandes federações”, comenta maliciosamente Patrick Mendelewitsch, agente de jogadores e especialista do footbusiness. Mesmo alguns escudeiros acham que Joseph Blatter e seus fiéis levam a coisa um pouco longe demais. “O modo de funcionamento da FIFA não é conveniente”, critica sobriamente Jean-Pierre Karaquillo, diretor do Centro de Direito e Economia do Esporte e próximo das instâncias dirigentes da Federação Francesa de Futebol.

Conselheiro da federação de Trinidad e Tobago, Jack Warner é a própria encarnação do sistema. O temido presidente da Confederação de Futebol da América do Norte, Central e Caribe (Concacaf) é o principal auxiliar de Joseph Blatter. E com razão: as ilhas do Caribe são tão numerosas que, apesar de sua população bastante pequena, a Concacaf sozinha conta com três assentos no comitê executivo!

Homem de uma fortuna pessoal avaliada entre 15 e 30 milhões de euros, o apoio de Warner tem preço alto. Em 1999, a FIFA renunciou a uma cobrança de cerca de 9,5 milhões de euros da Concacaf. E quando, em 2002, o presidente da federação de Antígua e Barbuda, Chet Greene, pediu uma mãozinha à matriz para financiar o Centro de Desenvolvimento do Futebol Jack Austin Warner, um cheque de US$ 161.439 veio prontamente de Zurique. Um ano mais tarde, o jornalista Andrew Jennings foi ao local do centro e, em vez de campo de futebol, descobriu “cavalos pastando perto da carcaça de um caminhão de entrega de cerveja13”.

Especialista no “uma mão lava a outra”, Warner apoia sistematicamente seu presidente cada vez que este é atacado. As eleições de Blatter em 1998 e 2002 tiveram irregularidades? Warner demonstra solidariedade incondicional a ele e exige sanções exemplares contra os adversários e contestadores. Vice-presidente da Confederação Africana, Farah Addo arcou com o mau humor dos partidários de Blatter. Em 1998, esse clã ofereceu-lhe 75 mil euros em troca de seu voto. Descontente, Addo denunciou então que 18 oficiais africanos já tinham vendido seu voto. Mas, diante de sua incapacidade de provar as acusações, a comissão disciplinar da FIFA suspendeu-o de suas atividades por dois anos. Quanto às investigações internas sobre as eleições controversas, elas foram todas classificadas improcedentes.

Pouco inclinado a remorsos, Blatter seria candidato a um quarto mandato em 2011. “Não terminei minha missão”, explicou sorrindo em uma coletiva de imprensa na sede da FIFA.14 Resta derrotar seu rival declarado, o presidente da Confederação Asiática de Futebol, Mohammed Bin Hammam, do Qatar. “Agora que percebe sua hora chegando, Bin Hammam volta-se contra seu senhor”, diverte-se Patrick Mendelewitsch. Como Warner, Bin Hammam foi um apoio incondicional de Blatter, o que não o impede de reivindicar súbita e oportunamente uma limitação da presidência da Fifa a dois mandatos. Porque quando passa disso, argumenta ele, o número um da Fifa começa a “ocupar-se de tudo, menos de futebol15”. Para Patrick Mendelewitsch, “o sucessor de Blatter seguirá o código de conduta da grande família do futebol: fará uma faxina pelas beiradas, mas não mudará radicalmente o sistema”.

David Garcia

É jornalista
1 Le Figaro, Paris, 11 de junho de 2009.
2 Adidas, Coca-Cola, Emirates, Hyundai, Sony, Visa.
3 Relatório financeiro da FIFA, Zurique, 2009.
4 Ler Ronan David, Fabien Lebrun e Patrick Vassort, Footafric, coupe du monde, capitalisme et néocolonialisme, L’Echappée, Montreuil, 2010.
5 Andrew Jennings, Carton rouge! Les dessous troublants de la FIFA, Presses de la Cité, Paris, 2006.
6 Op. cit.
7 Ler Paul Dietschy, Histoire du football, Librairie Académique Perrin, Paris, 2010.
8 Le Monde, 13 de março de 2008.
9 Op. cit.
10 Jérôme Jessel e Patrick Mendelevitch, La face cachée du footbusiness, Flammarion, Paris, 2007.
11 Bakchich Hebdo, Paris, 10 de abril de 2010.
12 Relatório financeiro da FIFA 2009.
13 Carton rouge, op.cit.
14 Agência France Presse, 18 de fevereiro de 2010.
15 Op. cit.

Fonte: Le Monde Diplomatique Brasil

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