Neoliberalismo no futebol

por Emir Sader 13/12/2006

Na euforia mercantil que tomou conta do país há uma década e meia, surgiu a panacéia para o futebol (e para os outros esportes): “profissionalização” tornou-se a palavra mágica. Lei Pelé ou como ficou conhecida a lei, supostamente daria mais liberdade aos jogadores e melhor administração aos clubes.

Mas o que aconteceu com os esportes – e, em particular, com aquele que, de longe, é o de prática e significação social mais ampla: o futebol?

O que mais avançou não foi a melhoria na gestão dos clubes, nem suas finanças, menos ainda as instalações esportivas ou a formação dos jogadores e a conseqüente melhoria na qualidade do futebol jogado no país. A principal mudança foi a passagem do reinado dos clubes para o dos empresários. A mercantilização se estendeu até limites insuspeitos: camisas coalhadas de publicidades, fazendo desaparecer o distintivo dos clubes. Jogadores e treinadores que só dão entrevistas com bonés de patrocinadores. Jogadores que fazem gestos da empresa que os patrocina quando fazem gol ou correm na direção das placas de publicidade dos seus patrocinadores. Jogadores que de repente deixam seus clubes no meio do campeonato por “propostas irrecusáveis” da Bielorrúsia. E, mais grave ainda, jovens comprados e vendidos em terna idade, sem formação mental e física minimamente estruturada, levados para o exterior.

Me lembro de estar na fila do consulado mexicano esperando para tirar visto e na minha frente vi uma pessoa com uma pasta onde pude ver uma lista de nome de pessoas, com a indicação das posições em que jogavam, denotando claramente que se tratava de uma viagem para tentar vender passes de jogadores, viagens ainda muito mais usuais para a Europa e a Ásia.

Os jogadores se livraram da despótica lei do passe para se transformar mercadorias nas mãos dos empresários. Como se tivessem sido abolidos os grilhões da servidão medieval para que os jogadores se tornassem “livres” – com são “livres” os trabalhadores no capitalismo: tem que vender sua força de trabalho a quem consigam, por não ter meios próprios de sobrevivência. A liberdade passou a ser a do empresário e a do capital, para comprar e vender suas mercadorias, não a dos jogadores.

Situação ainda mais cruel para os pobres – e, especialmente para os pobres negros e mulatos -, em um país em que para a grande maioria dos jovens – que são pobres – as únicas oportunidades de ascensão social são a música e o futebol (ou algum outro esporte) e que, portanto, se submetem à exploração dos empresários pela falta de oportunidades e de atração para um caminho distinto – educacional, cultural, profissional em outras áreas.

Não há nada mais típico das transformações da chamada “profissionalização” do que essa mercantilização. Os profissionais que passaram a ter poder não foram bons gestores dos clubes, mas empresários, sem nenhum compromisso com os clubes, comprometidos com as mercadorias de que são proprietários, das quais pretendem extrair a maior quantidade possível de lucros.

Então estaríamos condenados aos Euricos Mirandas, aos Mustafas Contursis e outros do tipo? Não necessariamente. Um clube pode ser democratizado, os negócios de um empresário privado, de forma alguma. No capitalismo se protege o direito do capital de buscar lucros da forma que conseguir, não há democratização possível, nem os clubes podem fazer alguma coisa diante da propriedade privada dos passes dos jogadores.

Para democratizar o futebol é preciso desmercantilizá-lo. É preciso democratizar os clubes, imprimir-lhes o caráter daquilo que são na prática, mas sem expressão nas suas estruturas de poder – seu caráter público. Cuidar do destino do Flamengo e do Corinthians – para tomar os dois clubes de maior torcida no Brasil – é uma função pública, que atinge a identidade, o estado de ânimo, produz alegria, sofrimento em dezenas de milhões de pessoas.

O neoliberalismo chegou ao futebol através da Lei Pelé, com a chamada “profissionalização”. Os clubes se interessam ainda menos em formar jogadores, porque rapidamente eles se tornam propriedade de empresários – verdadeiros cafetãos da genialidade dos futebolistas brasileiros. Jogadores não têm mais nenhum apego ao clube em que jogam, já que podem agora jogar por dois clubes no mesmo campeonato. Alguns deles ostentam com orgulho o fato de terem jogado em todos os grandes clubes do Rio e de São Paulo, tendo beijado as camisas de todos eles, à que juraram amor eterno.

Os trabalhadores não tem pátria no capitalismo, dizia Marx. São explorados igualmente pelo capital, não importando a fronteira, fenômeno que se estendeu a limites incríveis no futebol – com jogadores brasileiros participando da seleção de países de que ainda não tínhamos ouvido falar, vestindo estranhas camisas e gritando gol em raríssimos idiomas.

A superação desse processo de mercantilização, de banalização, de conspurcação da identidade futebolística – das únicas identidades que permanecem, quando tantas outras (políticas, de gênero, nacionais, entre outras) entraram em crise – só pode se dar por políticas públicas no esporte, que abranjam também os clubes, patrimônios nacionais e que não podem ser entregues ao mercado de capitais, assim como os jogadores. A polarização, central no neoliberalismo, entre o público e o mercantil, abarca em cheio o futebol e os esportes em geral.

Fonte: Carta Maior, http://www.cartamaior.com.br/templates/postMostrar.cfm?blog_id=1&post_id=80

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