Jogos Olímpicos Ltda: radiografia de uma candidatura

A candidatura é de Annecy, na França.

Os Jogos, são os de Inverno de 2018.

E Annecy acaba de perder para Pyongyang, na Coréia do Sul.

Mas isso não diminui a validade das questões levantadas pelo artigo abaixo,cujos alertas transcendem língua e local, e denunciam mazelas que atingem a todos, e ao planeta inteiro.

Seja o que Deus quiser em 2016, quando o Rio será invadido por uma horda de bárbaros com um Big Mac numa mão e uma Coca-Cola na outra.

Citius, altius, fortius

 

Jogos Olímpicos de 2018 em Annecy: a grande trapaça

Por Sophie Chapelle, para o basta!, em 06/07/2011

O Comitê Internacional Olímpico (CIO) escolherá neste 6 de Julho a cidade que vai sediar os Jogos Olímpicos de inverno de 2018. Do lado francês, vale tudo para ostentar os méritos de Annecy e impor os Jogos a saboianos reticentes:da mobilização nas cantinas escolares, passando pela ausência de consultas públicas, direitos trabalhistas postos de lado, investimentos exagerados com impactos econômicos e ambientais desastrosos, contratos que garantem total impunidade ao CIO e seus patrocinadores … basta! revela os bastidores de um espírito olímpico que não tem nada de esportivo.

Para Nicolas Sarkozy, o UMP [N.T.: partido de Sarkozy] deve estar por trás da candidatura de Annecy aos Jogos Olímpicos de inverno de 2018. Custe o que custar. Depois do anúncio, em dezembro de 2010, da demissão do diretor geral do comitê da candidatura, Edgar Grospiron [N.T.: Edgar Grospiron foi também campeão olímpico de ski em 1992], que se queixava de um orçamento muito minguado, o ministro dos esportes decidiu acompanhar o caso de perto. Nomeou um novo diretor cujo nome é bem conhecido no meio das finanças, Charles Beigbeder, CEO da Poweo (fornecedora de gás e eletricidade). De esporte ele não conhece grande coisa, mas isso não tem problema. Antigo candidato à presidência do Medef  [N.T.: a maior organização patronal da França], o homem de negócios iria se cercar de lobistas e marketeiros para tentar recuperar o atraso da candidatura de Annecy em face de seus outros dois concorrentes, Munique, na Alemanha, e Pyongyang, na Coréia do Sul. O orçamento da candidatura explodiu: de iniciais 18 milhões de euros, passou para atuais 30 milhões, dos quais a maior parte é destinada à comunicação e ao marketing.

Pelo menos 600.000 euros foram destinados à criação de um filme de uma dezena de minutos para ser exibido perante os membros do Comitê Olímpico Internacional em 6 de julho, momentos antes de darem o seu voto. É bom tomar todas as medidas, e isso inclui a mobilização de crianças: a guerra de opinião estende-se até às cantinas escolares de Annecy, onde 100.000 calculadoras e 50.000 brochuras com as cores dos Jogos foram distribuídos. A visita dos membros da comissão de avaliação do CIO em fevereiro deste ano custou, por baixo, 2,5 milhões de euros. Nessa ocasião, uma boa parte do governo se deslocou para lá. Visita após visita, o Primeiro Ministro François Fillon, depois Christine Lagarde, Brice Hortefeux, Frédéric Lefebvre, François Baroin e Chantal Jouanno se revezavam na exposição dos trunfos da candidatura francesa. Todos falavam de “autenticidade” e de “desenvolvimento sustentável”, as pedras angulares do projeto.

Uma candidatura da Saboia sem os saboianos

Um ligeiro problema: não existem provas de que  Annecy ou a Alta Saboia apóiem os Jogos Olímpicos. Há tempos atrás, as mídias nacionais foram embaladas por açucaradas pesquisas que atestavam um “imenso fervor popular” suscitado pela candidatura. A pesquisa de opinião realizada pelo CIO em dezembro de 2010 é menos lírica: somente 51% dos habitantes de Annecy são favoráveis aos Jogos, contra 32% de opositores e 17% de indecisos. Resultados pouco lisonjeiros quando comparados aos de Munique (60% a favor, 15% contra) e, sobretudo, aos de Pyongyang (92% a favor, 2% contra). O frágil placar de Annecy traduz o ceticismo crescente em relação a um evento considerado por muitos como supérfluo. Para o prefeito de Annecy, Jean-Luc Rigault (partido Novo Centro), esses resultados são fruto de uma operação de desestabilização conduzida pela “extrema esquerda”. Os perigoso esquerdistas são o CAO, um comitê anti-olimpíada criado em janeiro de 2009, reunindo associações ambientais, partidos políticos e cidadãos. Munidos de galhardetes, panfletos, buzinas e sinetes de bois, eles recolheram mais de 16.000 assinaturas para dizer “não aos Jogos Olímpicos de Annecy 2018”.

Entre os signatários, muitos consideram que o dinheiro orçado – 4,8 milhões de euros, caso Annecy seja escolhida pelo CIO – poderia ser melhor utilizado para outros fins. Ainda mais considerando que esse tipo de estimativa de gastos é frequentemente subestimada. Em Atenas, em 2004, os Jogos custaram em torno de 9 milhões de euros, em vez dos 4,5 milhões previstos. O custo previsto dos Jogos de Londres em 2014 já quase quadruplicou. Os habitantes de Grenoble tiveram que pagar a fatura dos Jogos de 1968 durante 27 anos, sob a forma de impostos suplementares – impostos multiplicados por 2,4, até 1995. Àqueles que temem um custo econômico elevado para a região, Charles Beigbeder promete a criação, na Alta Saboia, de “10.000 a 35.000 empregos”. “Albertville [N.T.: sede dos Jogos de Inverno de 1992],” retrucam os membros do CAO, “representou um déficit de 115 milhões de euros e a falência de 550 empreendimentos de artesanato.” Na Câmara de Comércio de Chambéry, Bernard Delcroix reconhece que “o evento foi grandioso demais para a Saboia e seus pequenos e médios empresários, que não puderam obter benefícios diretos.” Grande parte da atividade suscitada pelos Jogos, caso Annecy seja eleita, terá curta duração.

Lá onde o CIO se instala, os direitos trabalhistas falecem

Pior, os empregos a serem gerados, aos quais Beigbeder fez referência, serão regidos sob a égide de um contrato não negociável, “o contrato da vila olímpica”, a ser assinado pela comunidade escolhida, o Comitê Olímpico Nacional e o CIO. Escrito já na primeira página, o CIO se reserva o direito de modificar todo, ou parte do contrato unilateralmente … Mais além, no item 11, ficamos sabendo que “todas as pessoas de posse de um crachá de identificação e credenciamento olímpico ficarão livres de todas as limitações ou restrições relativas à regulamentação do trabalho (salário, quantidade de horas etc) no país anfitrião, para toda a atividade profissional conduzida por elas, relacionada aos Jogos naquele período.” Lá onde o espírito olímpico se instala, joga-se fora qualquer referência aos direitos trabalhistas (lembremos dos Jogos de Pequim).

O respeito aos código públicos de contratação também foi esquecido: “O Comitê de organização dos Jogos Olímpicos, a Vila e o Comitê Nacional Olímpico se reservam o direito de satisfazer todas as suas necessidades em produtos e serviços que se encaixem nas categorias de produtos/serviços dos patrocinadores do programa internacional,  recorrendo aos patrocinadores correspondentes do citado programa…” Esses fornecedores oficiais e obrigatórios são McDonald’s, Coca e Samsung. Além disso, no contrato com a vila organizadora, o CIO e seus patrocinadores prevêem uma verdadeira cláusula de impunidade contra qualquer ação na justiça ou prejuízo.

Item 9 – Indenização pela Vila, o Comitê Nacional Olímpico e o COJO: A Vila, o CNO e o COJO deverão em todas as circunstâncias indenizar, defender, proteger e isentar o CIO, os serviços de televisão e de marketing do CIO, o ORTO tal qual definido na seção 55(a) abaixo, e seus responsáveis, membros, diretores, empregados, consultores, agentes, mandatários, contratantes (por exemplo, patrocinadores, fornecedores, detentores de licenças e distribuidores olímpicos) e outros representantes respectivos (separadamente uma “pessoa lesada do CIO” e coletivamente “pessoas lesadas do CIO”), de qualquer pagamento e outras obrigações por quaisquer danos, exigências, reclamações, ações na justiça, perdas, custos, despesas (honorários e taxas advocatícias externas incluídas) e/ou responsabilidades de toda a natureza (responsabilidade civil frente a pessoas ou a propriedades) – diretas ou indiretas …

Assim se previnem de eventuais irritações dos autóctones frente ao efêmero invasor. Os espaços públicos serão, por exemplo, “colocados sem reserva à disposição do Comitê de organização dos JO” durante toda a duração do evento. Dessa forma, as vias de acesso reservadas ao público, aos esportistas e à mídia, serão requisitados durante quinze horas por dia, a fim de garantir de toda a forma esse pequeno mundo que cerca as provas olímpicas. Os jogos pretensamente “sempre mais verdes”, mas não para todos.

Democracia ultrajada

Os habitantes de Annecy descobriram tardiamente os impactos de tal candidatura. Foi somente em fevereiro que ficaram sabendo que o Pâquier, um grande espaço verde ao redor do lago de Annecy, será tornado inacessível durante um ano, recoberto por um teatro de cerimônias de 42.000 lugares. Tarde de mais para demonstrar preocupações. “A documentação será tornada pública uma vez que ela tenha sido entregue ao CIO sem possibilidade de revisão”, testemunha um conselheiro municipal da oposição. Os defensores da candidatura começaram por fazer votar o apoio das coletividades locais, antes de informar os cidadãos. Mesmo os eleitos locais denunciam “um problema de transparência democrática.” O conselho municipal, por exemplo, foi convidado a se manifestar sobre as garantias e os compromissos de uma documentação técnica do qual eles não conheciam o teor preciso. Tanto que o documento enviado para guarda do CIO em Lausanne em 11 de janeiro só foi levado ao conhecimento dos conselheiros municipais de Annecy no dia seguinte! Os eleitos do conselho regional conseguiram obter um exemplar no dia 10 de janeiro à noite, atraso que tornou difícil um exame mais aprofundado dessa volumosa documentação técnica.

A oposição municipal pediu em várias ocasiões que fosse feito um referendo sobre a candidatura de Annecy aos JO. Uma idéia imediatamente descartada pelo prefeito Jean-Luc Rigaut. “Fazemos um referendo quando ainda temos meios de dizer sim ou não. Mas agora já estamos comprometidos.” Será que ele temia uma reprise de Denver? Em 1972, um referendo municipal para definir a participação da cidade na candidatura aos jogos de inverno de 1976 viu uma larga vitória do “não”. Nos Alpes, foram os referendos locais que definiram a retirada das candidaturas de Aosta, Val Gradena, Lech AM Arlberg, Obergoms e Oberland Bernese. Em Innsbruck, na Áustria, que acolheu à última hora os JO de 1976, 70% dos habitantes recusaram a organização dos Jogos de 2002.

“Jogos Olímpicos verdes? Isso não existe!”

Em Annecy, foram as associações ambientais inicialmente associadas à candidatura que acabaram por bater a porta. Em janeiro, a CIPRA (Comissão Internacional de Prevenção dos Alpes) abandonou o Conselho de orientação de desenvolvimento sustentável e ambiental da candidatura, denunciandoum mercado de patinhos”. Ao lado da France Nature Environment e da FRAPNA (Federação Rhône-Alpes de Proteção à Natureza), a CIPRA critica “o impacto ambiental do projeto, largamente, voluntariamente, sub-estimado.” As dificuldades de fornecimento de água potável fazem parte das reclamações. A programação das provas de ski estilo livre sobre o platô de Semnoz, que culmina a apenas 1.600 metros, torna os canhões de neve inevitáveis. O advento de infraestruturas inúteis como o anel de velocidade – 84 milhões de euros – ou os trampolins de salto de ski – 19 milhões de euros, levanta dúvidas. O CIO coloca as exigências, impondo dois alojamentos por atleta, um na planície e outro na estação. No total, a vila deve ser capaz de fornecer cerca de 23.000 quartos em hotéis de 3 a 5 estrelas, mesmo que hoje Annecy não possua mais do que 4.100.

A obsolescência programada

Turin está em boas condições de testemunhar os impactos desastrosos dos jogos, cinco anos após tê-los organizado. As instalações de esporte alpino que custaram muitos milhões de euros e a necessidade de desflorestamento de metade de uma montanha estão hoje abandonadas. O grande hotel de 120 quartos construído ao pé das instalações está fechado. Para o CAO, esses Jogos são ainda “um pretexto para impor aos habitantes de Annecy projetos altamente contestáveis.”  Na linha de mira, o túnel sob o Semnoz, 12 km perfurados sob a montanha para desviar o fluxo de veículos e evitar o centro de Annecy. Esse projeto permitiria também a edificação da “fenda alpina”, um eixo de urbanização contínua de 220 km entre Genebra e Valença. No horizonte, mais auto-estradas, túneis e terras aráveis asfaltadas. Que bom para as empreiteiras!

À véspera do veredito final, a ser oficializado em 6 de julho em Durban, na África do Sul, o destino de Annecy é, de agora em diante, definido nas altas esferas do CIO. Nas ruas de Annecy, um novo slogan vai, de agora em diante, de vento em popa: “menos alto, menos rápido, menos forte”.

Traduzido por Gustavo Lapido Loureiro

Fonte: http://www.bastamag.net/article1644.html

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