Sandra Quintela: “É um espetáculo para inglês ver”

por Luiz Carlos Azenha

Quando o Rio se preparava para sediar os Jogos Panamericanos de 2007,
o discurso era o mesmo que se ouve agora, sobre o futuro da cidade
depois da Copa de 2014 e das Olimpíadas de 2016. Para justificar o
investimento de 30 milhões de reais, muito se falou no “legado do
Pan”.

Quatro anos depois, a economista Sandra Quintela, do Instituto de
Políticas Alternativas para o Cone Sul (PACS), diz que praticamente
não houve legado para a população em geral. As obras custaram dez
vezes mais, perto de 300 milhões de reais. Dois equipamentos
construídos com dinheiro público foram privatizados — o Engenhão para
o Botafogo, que ganhou a concessão por 36 mil reais mensais e a Arena
Olímpica, hoje Arena HSBC, pela GL Events, até 2016.

Outras instalações, como o Parque Aquático Maria Lenk, tem tido uma
utilização muito abaixo do que se imaginava então. E, segundo Sandra,o
Centro Nacional de Tiro Esportivo Tenente Guilherme Paraense, em
Deodoro, só voltou a ser utilizado recentemente, nos Jogos Mundiais
Militares.

Isso, numa cidade e num estado que exibem deficiências graves. Sandra
exemplifica com os problemas no Hospital Rocha Faria, as dificuldades
no trânsito — uma viagem entre Campo Grande, na zona Oeste e o centro
do Rio pode levar três horas — e os professores estaduais em greve,
com um salário-base de cerca de 700 reais.

Ela também lembra que a Vila Olímpica, construída com recursos do
Fundo de Amparo ao Trabalhador, “foi entregue ao mercado imobiliário”.

Mas a preocupação da economista se volta para o futuro.

Ela decorre de três questões pouco debatidas pela sociedade e
aprovadas a toque de caixa pelo Executivo e pelo Congresso: o aumento
no limite de endividamento das cidades e estados-sede da Copa de 2014;
a alteração na Lei de Licitações, que permite a uma empresa assegurar
uma obra sem o projeto definitivo, ou seja, sujeita, em tese, a
numerosos aditivos; e as isenções fiscais que serão concedidas ao
Comitê Organizador Local (COL), à FIFA e a outras empresas ligadas à
promoção da Copa de 2014.

A combinação de renúncia fiscal com endividamento público é concreta;
as projeções de benefícios, meras projeções.

A economista lembra que as promessas de que não haveria dinheiro
público investido nos estádios já se esfarelou. Segundo o Tribunal de
Contas da União (TCU), diz Sandra, só 1,44% dos R$ 25 bilhões
previstos em investimentos para a Copa virão da iniciativa privada. O
BNDES e a Caixa Econômica Federal, afirma, estão garantindo 50% dos
recursos para os estádios.

Sandra teme que o que aconteceu no Rio, com o “legado do Pan”, vá se
repetir no Brasil: investimentos públicos agora gerando lucro privado
mais tarde. Com a conta paga pela população.

Embora as condições da Grécia sejam bastante específicas, a economista
adverte que existe consenso de que os gastos com as obras para as
Olimpíadas de 2004, em Atenas, foram um agravante para a crise
econômica hoje enfrentada pelo país.

Faz uma pergunta: “A partir de 2017, quem é que vai pagar a conta?”.

E conclui: “É um espetáculo para inglês ver”.

Para ouvir a gravação, clique aqui:

Fonte: http://www.viomundo.com.br/denuncias/sandra-quintela-e-um-espetaculo-para-ingles-ver.html

Anúncios
Esse post foi publicado em copa 2014, Opinião, Reportagens e marcado , , , , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s