Copa do Mundo criou ‘cidades neoliberais’, avaliam urbanistas

Política| 19/11/2011 | Copyleft

Copa do Mundo criou ‘cidades neoliberais’, avaliam urbanistas

Decisões político-urbanísticas estariam subordinadas a interesses 
privados nas doze capitais brasileiras que vão sediar partidas da maior 
competição esportiva do planeta em 2014. Despejo de comunidades carentes 
por causa de obras e controle do espaço público para atender 
patrocinadores seriam exemplos visíveis de predomínio da lógica mercantil.

Najla Passos

RIO DE JANEIRO – Comitês populares criados nas 12 cidades-sede da Copa 
do Mundo de 2014 reclamam que a realização do megaevento – e também da 
Olimpíada de 2016 – estão motivando intervenções nos municípios que 
extrapolam a seara esportiva de modo prejudicial a seus habitantes. 
Queixam-se que os espaços públicos estariam sendo mercantilizados, que a 
especulação imobiliária corre solta, que famílias estão sendo despejadas 
por causa das obras.

Este tipo de crítica não se limita a quem muitas vezes está sentindo os 
problemas na pele. Também encontra eco em urbanistas. “Estamos frente a 
um novo pacto territorial, redefinido por antigas lideranças paroquiais, 
sustentadas por frações do capital imobiliário e financeiro, e amparadas 
pela burocracia do Estado”, disse Orlando dos Santos Junior, mestre e 
doutor em Planejamento Urbano e professor da Universidade Federal do Rio 
de Janeiro (UFRJ).

Santos Junior integra o Observatório das Metrópoles, um instituto 
virtual que reúne cerca de 150 pesquisadores na discussão de temas 
urbanos. Para ele, os megaeventos esportivos alteraram o processo 
decisório nas cidades. Investimentos públicos e privados orientam-se 
agora em função dos eventos, não das necessidades das pessoas. Corte de 
impostos, transferência de patrimônio imobiliário e remoção de 
comunidades de baixa renda seriam exemplos disso. “Essas remoções são 
espoliações, já que as aquisições são feitas por preços muito baixos”, 
afirmou.

Mestre em arquitetura e urbanismo, a professora da Universidade Estadual 
do Sudoeste da Bahia (UESB) Nelma Oliveira acredita que os megaeventos 
estão criando o que ela chama de “cidades neoliberais”. Nelas, decisões 
políticas e urbanísticas estariam subordinadas aos interesses privados. 
Isso seria visível nas regras de exploração comercial. “Existe um 
controle do espaço público para atender aos patrocinadores, que querem o 
espaço das cidades, e não apenas do estádio”, disse.

Além das comunidades carentes vítimas de remoção, Nelma aposta que 
trabalhadores informais e profissionais do sexo vão ser reprimidos. 
“Limpar a cidade e proibir a atuações desses grupos faz parte do 
processo de higienização das metrópoles”, afirmou a professora, que 
participou nesta sexta (18), junto com Santos Junior, de debate em 
seminário sobre comunicação que acontece no Rio.

Presente ao mesmo debate, o jornalista Paulo Donizetti, editor da 
Revista do Brasil, afirmou que os megaeventos deveriam ser uma 
oportunidade de a sociedade discutir políticas públicas. Mas o país não 
estaria aproveitando. “Qual poderia ser o legado humano desses eventos? 
Fala-se muito do legado físico, mas não se fala em aproveitar as 
Olimpíadas de 2016 e desenvolver uma política esportiva”, criticou.

Segundo ele, ao contrário de outros países latino-americanos, o Brasil 
não tem um programa esportivo universalizado. “Por que o esporte, no 
Brasil, é para poucos? Nós estamos preparando uma reportagem sobre a 
Copa e já descobrimos que 70% das escolas brasileiras não tem nenhuma 
quadra”, disse.

 

Fonte: http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=19000

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