Atraso deixa legado sob suspense

Mesmo sem começar, obras de mobilidade em Curitiba entram no prazo derradeiro. Com base no programa inicial, quatro projetos ficariam prontos apenas após a Copa.

27/05/2012 | 00:06 | Antonio Senkovski e Dilvo Rodrigues, especial para a Gazeta do Povo

Embora a Copa do Mundo de 2014 esteja apenas a dois anos do início, toneladas de burocracia e cimento ainda separam o evento dos brasileiros. A possibilidade de que durante o torneio da Fifa haja projetos pela metade e com custos inflados é real – inclusive em Curitiba.

Para receber quatro jogos do Mundial, 13 grandes obras foram previstas na capital paranaense. O setor que ocupa a maior fatia da atenção é o legado em mobilidade urbana. Ao todo estão nos planos nove intervenções para a cidade em um valor total de R$ 544 milhões (ver quadro) – 17% a mais do programado até janeiro de 2011.

No último balanço divulgado pelo governo federal, na quarta-feira, apenas a reforma do Terminal Santa Cândida e a extensão da Linha Verde Sul estão em andamento. Com base nos prazos estipulados inicialmente, há risco de que quatro deles não fiquem prontos no tempo adequado.

A requalificação do Cor­­redor Metropolitano – via de integração entre municípios da região – é a operação mais extensa e que vai requerer maior investimento financeiro por parte do poder público: R$ 137,6 milhões. Por enquanto, destaca-se como símbolo da lentidão.

A intervenção viária se caracteriza por requalificar 70 km dos acessos entre Curitiba e região metropolitana. A primeira parte da melhoria vai de Tamandaré a São José dos Pinhais e deveria ser entregue em agosto deste ano, mas o plano integral nem sequer foi finalizado.

Nesse caso a previsão, de acordo com o diretor técnico da Coordenação Metropolitana de Curitiba (Comec), Sandro Setim, é de que a licitação saia apenas em agosto, data na qual o Corredor deveria ser inaugurado. “Nós temos o projeto básico em mãos, falta ainda o projeto executivo. O atraso ocorre devido a uma compatibilização de projetos para aperfeiçoar a gestão do dinheiro público”, defende.

Se for levado em consideração o prazo inicial para execução do empreendimento (24 meses), o Corredor Metropolitano ficaria pronto durante o Mundial, em junho de 2014. Isso se não houver mais atrasos e início imediato.

Antônio Costa/ Gazeta do Povo / Obras na Avenida das Torres ficariam prontas apenas em setembro de 2014, se tempo de execução inicial fosse o mesmo Obras na Avenida das Torres ficariam prontas apenas em setembro de 2014, se tempo de execução inicial fosse o mesmo

O diretor da Comec admite que trabalha contra o relógio e a resposta sobre como resolver os prazos fica no campo das hipóteses. “[Nós] podemos abrir um número de licitações nas quais as empresas executarão a obra em várias frentes de trabalho simultaneamente. E isso sem custos adicionais”, garante.

Para o assessor-chefe do departamento de Trans­­portes da Universidade Fe­­deral do Paraná (UFPR), Roberto Gregório da Silva Junior, os atrasos podem até ser revertidos, mas muito dificilmente sem aumentar os custos.

“Quando a gente fala em intervenções, em obras, na contratação você tem uma programação, um ritmo, com turno de 8 horas. Dependendo pode ser que aumentem os turnos, mas isso sempre deixa a conta mais cara”, contesta.

O plano de requalificação do terminal da Rodoferroviária segue esse roteiro. O cronograma inicial prevê 26 meses de execução, anunciando outubro de 2010 como pontapé inicial. Como até agora apenas o projeto foi entregue (em setembro de 2011), caso a estimativa de ritmo seja mantida e a reforma começar hoje, as instalações estariam à disposição do público somente em agosto de 2014.

O valor estimado da ação passou de R$ 36,2 milhões para R$ 48,9 milhões. Neste momento, R$ 900 mil foram executados – 1,84% do valor total.

De acordo com a assessoria do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc), o cronograma está dentro do prazo estabelecido – com a entrega no fim de 2013.

No caso da reforma das vias de Integração Radial Metropolitana, a ideia inicial era começar em setembro de 2010 e terminar em setembro de 2012 – 24 meses. Apenas com o programa em mãos, o feito só estaria finalizado – se o trabalho largar imediatamente – no período em que a bola rolar no torneio.

As melhorias na Avenida das Torres, principal acesso entre o aeroporto e a rodoviária, necessitariam – ainda conforme os dados preliminares do poder público – de 26 meses entre desapropriações e força operária para a conclusão. Nesta hipótese, também só com o esboço em mãos, o legado estaria à disposição apenas em setembro de 2014.

A previsão do governo municipal é de que a execução da obra se inicie em três semanas e na nova configuração terá duração de 18 meses.

Saiba mais:

Confira no infográfico um mapa dos gastos e investimentos para a Copa

  • Mais caro

Se forem levados em consideração os dados do Portal da Transparência da Presidência da República, cinco vezes mais dinheiro está previsto para a construção de apenas uma etapa da obra nas Vias Radial (ver mapa). O trecho entre Curitiba e Colombo inicialmente custaria R$ 7,5 milhões, mas a tabela atualizada em abril em 17 de abril aponta para um valor de R$ 35,1 milhões. O gasto previsto para as outras três etapas não constam na lista, e os detalhes sobre a adequação do projeto ainda não foram divulgados.

  • Especialistas questionam pouco debate

O debate público das obras é apontado pelos especialistas como um dos pontos mais falhos na execução dos projetos da Copa. Segundo o assessor-chefe do Departamento de Transportes da UFPR, Roberto Gregório da Silva Junior, falta uma política efetiva de integração metropolitana em Curitiba e seu temor é de que as autoridades deixem passar a oportunidade que a Copa traz para resolver velhos problemas. “Sem sombra de dúvida para a mobilidade metropolitana os projetos apontados são fundamentais, mas o que ocorre é que as obras precisam ser mais discutidas com as partes envolvidas, chamar a sociedade e debater de forma integrada”, aconselha.

O professor de Direito da UFPR Leandro Franklin concorda com as discussões escassas e a falta de esclarecimento dos detalhes dos projetos. “Não houve debate público, o que houve foi uma decisão técnica e depois que os técnicos definiram quais seriam os projetos é que se abriu para a comunidade participar”.

Segundo Olga Firkowski, coordenadora do Observatório das Metrópoles em Curitiba – órgão que pesquisa os impactos sociais e ambientais das obras nas cidades-sede, situações como essas abrem espaço para dúvidas. “Parece que há um receio de se divulgar informações mais precisas sobre as obras em geral. Nós, por exemplo, não tivemos acesso aos projetos. E, em casos como esse, em que a divulgação de dados dos diversos portais não apresentam coerência, o temor é que se abra uma brecha para o beneficiamento ilícito e para a corrupção”, alerta.

fonte: http://www.gazetadopovo.com.br/talentojornalismo/conteudo.phtml?tl=1&id=1259259&tit=Atraso-deixa-legado-sob-suspense

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